Normativa reforça a dignidade da pessoa humana, a autenticidade das imagens e a responsabilidade no uso de ferramentas de inteligência artificial
A Arquidiocese de Aracaju publicou orientações para o uso responsável e discernido das ferramentas de inteligência artificial (IA) na comunicação. As normas, dirigidas aos padres, diáconos, ministros, agentes de pastoral, comunicadores e a todo o povo de Deus, têm como principal objetivo garantir que o avanço tecnológico esteja sempre a serviço da pessoa humana e da missão evangelizadora da Igreja.
A iniciativa parte de uma preocupação concreta: o uso de ferramentas de inteligência artificial na produção de imagens e áudios envolvendo bispos, padres e diáconos. Segundo a normativa, sistemas generativos podem reconstruir ou alterar características de uma pessoa — como olhos, nariz, boca, formato do rosto, cabelo, idade aparente e expressão facial — produzindo uma representação que continua reconhecível, mas que já não corresponde exatamente à pessoa real. Essa diferença pode comprometer a verdade que deve caracterizar a comunicação da Igreja.
Dignidade humana como critério de discernimento
A normativa destaca que a reflexão da Igreja sobre a inteligência artificial deve partir da defesa da dignidade da pessoa humana. Nesse sentido, recorda a Antiqua et Nova, que coloca a dignidade humana no centro do discernimento sobre a tecnologia e afirma que seus fins, meios e aplicações devem ser avaliados à luz do bem da pessoa e do bem comum.
O documento também ressalta que a Arquidiocese não propõe a rejeição da inteligência artificial. Ao contrário, reconhece que a tecnologia pode oferecer importantes recursos para a comunicação, desde que utilizada de maneira responsável, crítica e discernida. A ferramenta, porém, não deve substituir a capacidade humana de conceber, criar, avaliar e discernir.
Na apresentação da Encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV é citado ao afirmar que não se deve temer a inteligência artificial, mas manter constantemente em questão aquilo que é propriamente humano. A normativa recorda ainda que cabe à inteligência humana, com consciência e liberdade, orientar o desenvolvimento tecnológico e estabelecer seus limites.
Transparência e revisão humana
Entre as principais determinações estabelecidas pela Arquidiocese está a obrigatoriedade de revisão humana de toda arte produzida com auxílio de inteligência artificial antes de sua publicação.
A normativa determina também que conteúdos gerados ou manipulados por IA sejam sinalizados e claramente diferenciados daqueles criados por pessoas, especialmente quando o uso da tecnologia puder interferir na percepção da realidade apresentada.
A medida está em sintonia com a orientação apresentada pelo Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, segundo a qual conteúdos gerados ou manipulados por inteligência artificial devem ser identificados de forma transparente. A responsabilidade pelo resultado final, entretanto, permanece sempre humana.
Proteção dos rostos e das vozes dos clérigos
Um dos pontos centrais da normativa diz respeito à preservação da identidade visual e vocal de bispos, padres e diáconos.
A Arquidiocese orienta que não seja utilizada inteligência artificial generativa para reconstruir ou simular a aparência de um clérigo quando o resultado substituir sua fotografia real ou puder ser interpretado como representação autêntica de sua aparência ou de uma situação vivida por ele. A mesma orientação se aplica à simulação da voz de um bispo, padre ou diácono em mensagens ou discursos que não tenham sido originalmente proferidos pela pessoa.
Também não devem ser produzidas representações que atribuam a uma pessoa real uma aparência, fala, ação ou situação que não corresponda à realidade.
O que pode e o que não pode ser feito
A normativa reconhece diversos usos da inteligência artificial como ferramenta auxiliar na comunicação. Entre eles estão a criação de fundos, texturas, elementos abstratos e ilustrações, além de sugestões de layouts, trabalho com cores, composição, redação e conceitos visuais.
Por outro lado, é vedada a utilização da tecnologia para reconstruir o rosto de uma pessoa real em substituição à sua fotografia, modificar significativamente seus traços ou criar uma aparência artificial que seja apresentada como real. Também não devem ser produzidas imagens que coloquem um clérigo em situações que não aconteceram, representações sintéticas que possam ser confundidas com fotografias reais ou áudios que simulem a voz de uma pessoa em mensagens e discursos que ela não tenha proferido.
Uma comunicação a serviço da missão
Ao apresentar as orientações, a Arquidiocese de Aracaju reforça que a preocupação não está apenas na qualidade estética de uma imagem, mas na sua correspondência com a realidade que pretende comunicar. Quanto mais uma imagem busca representar uma pessoa ou acontecimento real, maior deve ser o compromisso com sua autenticidade.
O documento também recorda que, embora a IA seja uma ferramenta, a responsabilidade pelo material produzido continua sendo de quem a utiliza. Todo conteúdo destinado à evangelização deve ser avaliado por uma pessoa antes de sua publicação, pois permanece sendo uma comunicação institucional da Igreja.
Ao final, a Arquidiocese exorta agentes de pastoral, comunicadores e fiéis a agirem com prudência, consultando os próprios Ordinários e respeitando a normativa vigente. O princípio apresentado é claro: a técnica deve servir à missão e jamais desfigurá-la.
A normativa é assinada por Dom Josafá Menezes da Silva, Arcebispo Metropolitano de Aracaju, e conclui invocando a intercessão de Nossa Senhora da Conceição, Padroeira da Arquidiocese, para que a comunicação da Igreja preserve a dignidade e a beleza dos rostos e das vozes humanas chamadas a ser reflexo de Cristo.