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ARQUIDIOCESE DE ARACAJU

RECONHECER O CRUCIFICADO

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Eis que nos aproximamos das festas pascais. Mergulhados no Evangelho de São João, contemplamos os passos firmes e resolutos do Senhor, rumo à sua Paixão, Morte e Ressurreição. São os dias de nossa redenção, recordados todos os anos pelo calendário litúrgico. A cada dia, a Liturgia, pedagogicamente, nos insere nestes mistérios pascais, tonalizando o nosso coração e vida ao ofício de celebrar da Igreja de Cristo.

No Evangelho de hoje, temos a narração de um fato que aconteceu já na última fase da vida pública de Jesus. Estando o Senhor em Jerusalém para a maior festa judaica, a da páscoa, para cuja acorrência se dirigiam os judeus espalhados por todo o mundo, os gregos (ou prosélitos como eram denominados também) que para ali marcharam, atraídos pelas maravilhas que tinham presenciado em Jerusalém, quando da entrada triunfal de Jesus à saudação de hosanas, querem ter um encontro mais pessoal com o Mestre. Neste intento, disseram a Filipe: “Queremos ver Jesus!” (Jo 12, 21). Percebemos aqui uma sede no coração desses adventícios em querer conhecer o Senhor. Esta necessidade é também algo inerente ao coração de todos os homens, pois a fé lhe é conatural.

A uma primeira vista, meramente sorrateira, parece que o Senhor não dá muita importância ao pedido daqueles gregos que desejavam vê-lo. No entanto, essa opinião muda, quando diz: “E eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32). Se aqueles homens queriam ver Jesus, o Senhor afirma que a visão mais relevante se dará quando, na Sua hora, entregar-Se pela salvação da humanidade no patíbulo da cruz. Se aqueles homens desejam contemplar realmente Jesus, esta se dará na glorificação da cruz, como profetizara Isaías: o “meu Servo prosperará, crescerá, elevar-se-á, será exaltado. Assim como, à sua vista, muitos ficaram embaraçados – tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana -, assim o admirarão muitos povos: os reis permanecerão mudos diante dele, porque verão o que nunca lhes tinha sido contado, e observarão um prodígio inaudito” (Is 52,13-15). É, pois, sob a sombra do escândalo gritante e silencioso da cruz, numa cena repelente e triunfante do Cristo crucificado, extenuado de dores, disforme, que O encontramos glorificado. É nesta mesma cruz, onde repousa o santo e imaculado corpo de Nosso Senhor, que acontece a reunião da humanidade redimida, atraída para um só rebanho, sem distinção. Somente sob o Cristo Pascal é que exclamaremos: “Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14).

“Senhor nosso Deus, dai-nos por vossa graça caminhar com alegria na mesma caridade que levou o vosso Filho a entregar-se à morte no seu amor pelo mundo”. Assim rezamos na Oração de Coleta desta liturgia dominical. A cruz do Senhor é a máxima expressão do seu amor perfeitíssimo porque além de, por meio dela, remir-nos, congrega-nos no seu amor e no amor aos irmãos. Neste sentido, o Papa Bento XVI bem afirmou: “A cruz: a altura do amor é a altura de Jesus e a esta altura Ele atrai a todos”; e completamos: indistintamente.

Disse o Senhor: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna” (Jo 12,24-25). No primeiro momento, uma linguagem parabólica que utiliza uma imagem simplória, mas repleta de significado; na segunda parte, explicita claramente o que deveras afirmaria de maneira figurativa. Jesus é o grão que, livremente, Se decompõe; explodindo de amor, se doa, para gerar vida abundante, tal como o trigo que, no bojo da terra, apodrece, explode em germe, e, deste, faz brotar uma planta de espigas douradas formadas por abundantes granículos.

Diante do aparente paradoxo dotado de plena realidade, temos o ideal cristão do seguimento: o perder para ganhar. Nesta lógica, Santo Agostinho, comentando tal passagem, fomenta a nossa imitação ao Cristo, desprendido de Sua vida por amor: “Grande e maravilhosa verdade, no homem isto é um amor por sua alma que a perde, e um ódio que a salva. Se a tens amado exageradamente, a tens odiado; se tens odiado os excessos, então a tens amado. Felizes aqueles que odiaram as suas almas salvando-a, e não a perderam por haver-lhe amado demasiadamente” (Comment. in Ioan., 51, 10).

Paixão e Morte de Cristo: glorificação de Deus; derrota do maligno; vitória e soerguimento da humanidade outrora ferida mortalmente pelo pecado (cf. Jo 12,28.31). Sangue de Cristo: selo da Nova e Eterna Aliança entre Deus e o Seu Novo Povo, verdadeira casa de Israel e Judá. Não mais como no tempo de Jeremias, em que o reino, cujos súditos estavam exilados e escravizados, estava dividido em duas casas (Judá e Israel), sendo, portanto, distantes e rivais, mas sim como um único povo do Senhor, isto é a Igreja, Una e Imaculada. Se no Antigo Testamento as alianças do Senhor para com o povo, realidades prefigurativas da Nova e Eterna, eram representadas em aspectos insuficientes e variados, a Vera Aliança habita corporalmente em uma pessoa, Jesus Cristo crucificado, escandalosamente morto, como sinal de redenção para a humanidade decaída e atolada em seus crimes e misérias. Portanto, é no absurdo e ignomínia da cruz que reconheceremos, inconfundivelmente, o Senhor. E, ao vê-lo desta forma, recordaremos a Aliança (cf. Jr 31,34). O Crucificado é a identidade do cristão e o motivo de sua pregação (cf. 1Cor 1,23-24).

Que o restante do Santo Tempo da Quaresma nos auxilie imensamente para a nossa preparação interior na celebração das festas pascais que se aproximam; dias máximos em que revivemos, litúrgica e misticamente com a Igreja, a bendita e sagrada Paixão de Nosso Senhor, que quis padecer e morrer na cruz por nosso amor, para nossa redenção.

Padre Everson Fontes Fonseca, pároco da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Grageru).

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